Alumbre na Macaia
Alumbre na Macaia é o projeto de pesquisa onde incorporo na minha prática artística os ensinamentos que herdei da minha avó, meu pai e meus ancestrais dentro do terreiro de Umbanda.
O encontro da diáspora africana com os saberes euro indígenas criou subjetividades que só encontramos no Brasil. Os saberes guardados por Ossain em África encontraram com Tupã e viraram o São Sebastião europeu às avessas.
Esse encontro, profundamente marcado pela violência, mas também por invenções de novas formas de viver, já não é nem africano, nem indígena e nem europeu.
Filme 35mm banhado em cachaça e cerveja
Alumbrar é, ao mesmo tempo, se iluminar e se encantar.
Macaia é um lugar sagrado, além de também ser o conjunto de folhas sagradas usadas na Umbanda e do Candomblé.
Alumbre na Macaia é, portanto, macumbalizar a fotografia e fotografalizar a macumba.
Utilizando diferentes suportes como fotografia, instalação, video e material de arquivo da minha família, a pesquisa combina diferentes abordagens para pensar e produzir imagens, utilizando a macumba como linguagem fundamental na construção das obras.

“Kosi Ewe, Kosi Orisa" é um ditado em Yorubá que diz que sem as folhas não existe a energia vital que mantém os seres. É com elas que nos protegemos e nos limpamos.
O banho de ervas é um desses ritos onde a tecnologia desenvolvida pelo povo de santo serve como aparato de sobrevivência às violações que sofremos.
Eu utilizo essa tecnologia ancestral nos próprios negativos que fotografo no terreiro, literalmente banhando-os antes de revelá-los.

Há um jogo dialético que intersecciona poética e estética macumbeira.
Por um lado, trago através do banho de ervas uma visualidade, impactada e intencionada pelos acasos, acidentes, rasgos e desvios, assim como na construção religiosa das encantarias brasileiras.
Por outro lado, há o ato de literalmente banhar nas ervas sagradas os meus irmãos de axé, que estão presentes nos negativos, em forma de luz.
Movido pelos ensinamentos, pontos e toques que aprendi, o trabalho busca caminhar na direção oposta da descrição etnográfica que historicamente asselvajou as nossas práticas através de imagens estereotipadas.
Aqui, a subversão é a gênese do produto final: bem e mal, veneno e remédio, pecado e milagre se diluem, coexistem e se entrelaçam.



Tríptico Dona do Cabaré, 2023
Negativos 35mm banhados em cerveja e cachaça
100 cm x 210 cm (100 cm x 70 cm)
Tiragem 1/7 (+ 1 PA)